sexta-feira, 5 de julho de 2013

Aluguel por temporada cresce nos endereços mais cobiçados do Rio


Ronda feita pela reportagem do GLOBO entre 19h e 21h mostra apartamentos vazios na esquina de Delfim Moreira e Aristides Espínola -Foto: Marcelo Piu

Ronda feita pela reportagem do GLOBO entre 19h e 21h mostra apartamentos vazios na esquina de Delfim Moreira e Aristides Espínola - Marcelo Piu

RIO - A designer Julieta Sobral, neta do urbanista Lúcio Costa, morava em um dos endereços mais cobiçados pelos cariocas, a Avenida Delfim Moreira, no Leblon. O apartamento de cem metros quadrados, "com oito metros de vista para o mar", era tudo com que ela sempre sonhou, mas os preços foram às alturas e estouraram o orçamento. Só de condomínio, eram mais de mil reais. A saída foi alugar por temporada. Em um ano e meio, Julieta fez mais de 60 contratos com brasileiros e estrangeiros em busca de um feriado à beira-mar. A história de Julieta se repete com cada vez mais frequência na orla de Ipanema e Leblon, especialmente na Avenida Delfim Moreira - onde, em uma caminhada noturna na última quarta-feira, era possível ver prédios inteiros apagados, como nas esquinas das ruas Rainha Guilhermina e Carlos Góis. O mercado imobiliário já captou essa tendência.
Outras áreas cobiçadas são as avenidas Vieira Souto e Atlântica, além do Arpoador. Ainda não há dados precisos sobre o número de proprietários e locatários de fora do Rio, mas sabe-se que a procura por imóveis de temporada em Leblon, Ipanema e Copacabana cresce acima da média brasileira. De acordo com o site Alugue Temporada, braço brasileiro da americana Homeaway, o maior crescimento foi no Leblon. Em 1º de julho de 2011, havia no bairro 79 apartamentos de temporada. No último dia 1º eram 225, uma alta de 184,8%.
- O crescimento do mercado de aluguel para temporada é um fenômeno brasileiro, que tem o Rio como a cidade que impulsiona esse setor. Ipanema, Leblon e Copacabana são as regiões mais procuradas, certamente pela proximidade da praia, como num balneário - diz o presidente do site, Nicholas Spitzman - Quem aluga são pessoas que compraram esse imóveis há décadas, quando os preços não eram tão altos, ou herdeiros que não conseguem mais manter os apartamentos.
Dados do Alugue Temporada mostram que as diárias podem chegar a exorbitantes R$ 11 mil - o valor mínimo é R$ 150.
Em Ipanema não é muito diferente. Em julho de 2011, havia 206 apartamentos oferecidos para temporada. Atualmente, são 524, um aumento de 154,3%. Daniela Ribeiro, por exemplo, resolveu, há um ano, mudar para São Conrado e alugar por temporada seu apartamento na Rua Aníbal de Mendonça, herança de família. Resultado: nesse período, fechou cem contratos. Já em Copacabana, onde a tendência do aluguel por temporada não é recente, o número desse tipo de imóvel passou de 491 para 1.122, um crescimento de 128%.
Segundo Rodrigo de Mello Pires Barbosa, dono da empresa Morabilidade, que trabalha com mercado de luxo, essa rentabilidade tem levado empresários, inclusive estrangeiros, a comprarem imóveis no Rio como investimento.
- Esse mercado vem expulsando os cariocas de suas casas. São jovens do mercado financeiro que compram, reformam e depois alugam. Tenho clientes que conseguem ganhar R$ 50 mil em uma semana durante o verão, mas para ganhar dinheiro é preciso investir. Quem aluga não quer ficar no apartamento da vovozinha, são pessoas viajadas - explica.
As justificativas para a procura desenfreada pelo Rio são muitas. Especialistas lembram que o Rio é uma das cidades-sede da Copa de 2014 e que o município recebeu da Unesco o título de Patrimônio Mundial da Paisagem Cultural. Além disso, conseguiu reduzir a sensação de insegurança.
- O Rio é a capital do turismo e do calor. As pessoas querem morar perto do mar, ir a pé a restaurantes. O Rio sempre teve essa vocação, mas, com a violência, as pessoas sumiram daqui. Agora estão voltando - afirma Rubem Vasconcellos, da imobiliária Patrimóvel.
Se muitos se contentam em alugar por um período, há quem não abre mão de ter uma "casa de praia" no Rio. Como o empresário mineiro José Celso Gontijo, que há dez anos comprou um apartamento no Cap Ferrat, em Ipanema. O edifício é o mais caro da Avenida Vieira Souto - segundo especialistas, um imóvel pode sair R$ 40 milhões. Ele admite que há mais de um ano não passa uma noite no apartamento, mas nem pensa em se desfazer dele:
- Não quero vender. Qual o mineiro que não sonha em morar no Rio?
Mas quem quiser, como ele, ter um pouso no "balneário" carioca vai esbarrar no elevado preço do metro quadrado. Na Avenida Atlântica o valor fica em R$ 15.057, segundo dados do Sindicato de Habitação Rio, que representa imobiliárias e condomínios. Na Vieira Souto, é de R$ 34.603, e na Delfim Moreira chega a R$ 37.605.
Estrangeiros querem praia
Um dos destinos preferidos dos mais de 70 mil imigrantes que chegam ao Brasil é o Rio, de acordo com a Emdoc, empresa de consultoria especializada em mobilidade global. Em um ano, cerca de 500 famílias vêm morar na cidade. E quem chega busca endereços à beira-mar, seja na Zona Sul ou na Barra da Tijuca.
- Os europeus, por exemplo, parecem que chegam já com dicas dos amigos: querem morar perto da praia, de preferência em Ipanema ou Leblon. Muitos acabam desistindo quando percebem que os altos preços cobrados não significam bons apartamentos. Às vezes a parte elétrica está comprometida, não há vaga na garagem, e o jeito é buscar outros bairros - conta Danielle Ferrari, sócia da Emdoc no Rio.
Ela explica que os europeus fazem questão de manter um estilo de vida semelhante ao que levam em seus países. Espanhóis, franceses e italianos são predominantes nesses bairros da Zona Sul porque eles fazem questão de morar perto do comércio, fazer as coisas a pé e, de preferência, conseguir um imóvel próximo do metrô.
- Às vezes fica até difícil explicar que o metrô hoje só vai até Copacabana, eles não entendem muito bem isso - diz Danielle.
Já os imigrantes casados e com filhos buscam, segundo a pesquisa, a proximidade com as escolas internacionais, além de áreas de lazer e a segurança do condomínios. O destino não podia ser outro: a Barra da Tijuca. Para lá costumam ir americanos, canadenses e australianos.
Por outro lado, os solteiros, independentemente da nacionalidade, optam pela Zona Sul, de preferência em bairros que ofereçam vida noturna. Aqueles com maior poder aquisitivo vão para Ipanema. Os demais partem para Laranjeiras, Flamengo e Botafogo, onde os preços são mais acessíveis.