segunda-feira, 13 de maio de 2013

Joia que ninguém vê

A moradia mais simples de um conjunto do Lago Sul é, ao mesmo tempo, a que mais representa a qualidade da arquitetura moderna de Brasília. Obra e residência de Oscar Kneipp, ela tem cobertura abobadada e é toda integrada a jardins

DOIA KNEIPP (Iano Andrade/CB/D.A Press)
DOIA KNEIPP

Numa ponta de picolé do Lago Sul existe uma casa que destoa frontalmente das demais. Cercada de edificações luxuosas, a moradia singular, de um só pavimento, esconde-se atrás de um discreto muro de tijolinho e portões verdes. Há quem brinque que ela é a habitação do caseiro da mansão ao lado. A construção tem história, pertence ao acervo de obras modernistas, consta de uma dissertação de mestrado da Universidade de Brasília (UnB) e é queridinha entre arquitetos de filiação moderna.

A casinha de três quartos é obra do arquiteto Oscar Kneipp, um dos primeiros professores da Faculdade de Arquitetura (FAU) da UnB, parceiro de Oscar Niemeyer e de João Filgueiras Lima, o Lelé, no projeto do Minhocão. "Ele se orgulhava de ter projetado as escadas. Gostava de dizer que elas eram presas só de um lado", recorda-se Doia Kneipp, viúva do arquiteto, de nome Maria Auxiliadora, porém conhecida entre os amigos pela derivação de Dora. "Meus irmãos não sabiam pronunciar o R, daí o Doia."

O marido de Doia também desenvolveu os brises-soleils dos ministérios. Embora não fosse de muita conversa, chegou a comentar com a mulher: "Oscar gostou", referindo-se à solução encontrada para os brises dos edifícios da Esplanada. O arquiteto estava com Lelé no desenvolvimento do projeto da Colina Velha e do Hospital Regional de Taguatinga. Nos primeiros anos da FAU, era chamado de Oscarzinho, para não se confundido com o outro Oscar. Os dois estavam na lista de 200 professores que pediram demissão da UnB, em protesto contra o afastamento de um colega. Mas Oscarzinho não quis tirar proveito do gesto: "Não fiz nada de heróico. Apenas pedi pra voltar ao órgão de origem, a Novacap", comentou, em entrevista ao jornal Campus, da Faculdade de Comunicação da UnB.

Embora produto da safra moderna, a casa de Oscar Kneipp tem cobertura inspirada nos aquedutos romanos (como os arcos da Lapa), segundo conta a viúva, Doia. O arquiteto morreu num inacreditável acidente de bicicleta no Parque da Cidade, em outubro de 2009. Quatro anos depois, a edificação de telhado em curvas guarda a atmosfera de seu dono, projetista, construtor e morador. Na garagem, ainda está exposta a coleção de calotas de carros antigos. O divertimento deu ao arquiteto o apelido de Oscar Caloteiro.

Quem visita a casa do arquiteto não demora a perceber o intenso gosto que ele tinha pela vida. Colecionava carros antigos, carros antigos em miniatura, peças de publicidade de carros antigos impressas em revistas, desenhos de carros antigos, enfeites de capota de carros antigos. "Um dia, na volta de uma viagem ao Rio, ele comentou que tinha visto algumas coisas muito bonitas passando pela Avenida Atlântica. Perguntei se eram mulheres... mas não eram, eram carros!", conta Doia Kneipp. Fazia dança de salão, jogava futebol, andava de bicicleta, corria e caminhava - de guarda-chuva se fosse preciso.

A casa demorou dez anos para ser construída e por dois motivos básicos: o dinheiro era pouco, e o projeto, muito cheio de detalhes. Para construir o telhado de abóbadas feitas com tijolinho, Kneipp mandou fazer uma imensa forma de rodinhas e, com ela, punha os tijolinhos e assentava-os. Era preciso esperar a secagem de uma parte para seguir adiante. Todo o piso da casa é feito de um tipo só de material: uma lajota de concreto que o arquiteto construía no canteiro de obras, peça por peça. Nas áreas externas, o piso é rude. Nas áreas sociais, foi limado e encerado, e na cozinha e na área de serviço, foi pintado. "As crianças brincavam, riscavam, e era só passar um pano
e pronto", lembra Doia. Depois de mais de 20 anos de uso, o piso permanece intacto.

A pequena peça moderna se abre quase inteiramente para a vegetação. A sala com quatro ambientes tem um jardim de inverno cuja cobertura, abobadada, tem elementos vazados que lembram um nobre recurso da arquitetura moderna - na casa de Kneipp, o cobogó foi parar no telhado. As duas salas e a cozinha derramam-se numa vista monumental: ao fundo do imenso gramado, vê-se o Lago Paranoá à frente; do outro lado, a Esplanada dos Ministérios; e à direita, a Ponte JK, arqueada como o telhado de Kneipp.

 Os três quartos da casa dividem uma varanda ajardinada que, embora única, parece três, dados os efeitos do paisagismo: vegetação de folhas graúdas oferecem privacidade a cada um dos cômodos. "A casa demorou tanto para ficar pronta que, quando nos mudamos, minha filha já estava casada. Ela nem aproveitou o quarto feito para ela". O escritório também é brindado com um jardim interno.

Antes de se mudar para o Lago Sul, os Kneipps tiveram outras experiências tipicamentes brasilienses. Quando era professora de Letras da UnB (depois foi trabalhar no Congresso Nacional), Doia morou na OCA, edifícios de madeira usados para moradias na UnB. E, em seguida, na Colina Velha, a quadra destinada aos professores. Depois de casada, em meados dos anos 1960, morou num dos apartamentos térreos dos predinhos JK, os blocos sem pilotis da Asa Sul. "Era muito engraçado. Meu irmão, quando vinha me visitar, entrava pela janela!" - recurso inimiginável para os dias de hoje. Os garotos da vizinhança gostavam de acompanhar o movimento da casa também pela janela. No dia em que Doia providenciou cortinas para assegurar a privacidade, os vizinhos reclamaram.

Terreno do Lelé
Do JK, o casal e seus dois filhos foram morar na 206 Sul e experimentaram o que de melhor as superquadras ofereciam: a convivência debaixo do bloco. Apesar de morar há mais de duas décadas no mesmo lugar, Doia se dá conta de que não conhece a vizinhança, à exceção de dois moradores próximos. "Que coisa horrível!". A casa, porém, acolheu e testemunhou ao longo dos anos o nascimento dos netos e ofereceu a eles uma casinha de brinquedo feita de madeira, pendurada em pilotis, coberta de palha, com escorregador, escada, janelas de duas folhas, dois pavimentos e baldinho que sobe em carretilha.

O vínculo da casa de telhado curvo com a história de Brasília é ainda mais forte do que o já dito aqui. O terreno pertencia a João Filgueiras Lima, amigo de Kneipp. "Lelé resolveu vender o lote para comprar uma chácara. Oscar tinha um dinheirinho guardado para trocar o Fusca que tinha por um mais novo. Foi com essa diferença que ele comprou o terreno", recorda-se Doia.

Embora tenham se passado 25 anos desde que se mudaram para o Lago Sul, o silêncio continua a se impor sobre os moradores. "A gente precisa ir ao Plano de vez em quando para ouvir um pouco de barulho, ver um pouco de movimento." À noite, a escuridão é tamanha que, apagadas as luzes, não se consegue ver a mão diante do rosto. É o efeito da imensidão dos terrenos das pontas de picolé, os mais nobres do Lago.

Mas a pequena joia fora de lugar corre o sério risco de vir abaixo. A proprietária pensa em vendê-la, mais ainda está em dúvida entre ouvir o coração ou a razão. Nos primeiros contatos com o mercado imobiliário, ouviu de um corretor: "A senhora sabe que quem comprar vai derrubar a casa, né? Quem compra um terreno desses quer fazer a sua própria casa". Caso decida mesmo deixar a casa, por certo o prognóstico se confirmará e, no lugar daquela discreta, porém acolhedora, bem resolvida e arejada peça da arquitetura moderna, surgirá mais um exemplar de excessiva ostentação.

A casa demorou tanto para ficar pronta que, quando nos mudamos, minha filha já
estava casada. Ela nem aproveitou o quarto feito para ela"
Doia Kneipp, dona da casa, viúva de Oscar Kneipp






Aquedutos romanosVem deles a inspiração para o telhado abobadado (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Aquedutos romanos Vem deles a inspiração para o telhado abobadado



Pequena e discretaA construção ocupa o terreno da ponta de picolé sem ostentação  (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Pequena e discreta A construção ocupa o terreno da ponta de picolé sem ostentação



Muita luzNa sala de quatro ambientes, é farta a iluminação natural (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Muita luz Na sala de quatro ambientes, é farta a iluminação natural



Jardim para todosA varanda alongada percorre os três quartos da casa (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Jardim para todos A varanda alongada percorre os três quartos da casa



Cobogó no tetoO jardim de inverno num dos cantos da sala cria um grafismo de luz (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Cobogó no teto O jardim de inverno num dos cantos da sala cria um grafismo de luz



Oscar CaloteiroEra esse o apelido do arquiteto por causa de sua coleção de calotas (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Oscar Caloteiro Era esse o apelido do arquiteto por causa de sua coleção de calotas



Casinha de brinquedoSuspensa entre árvores, com tobogã e dois pavimentos   (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Casinha de brinquedo Suspensa entre árvores, com tobogã e dois pavimentos



A Esplanada ao longeDa cozinha, se aprecia o lago, o Congresso e a silhueta dos ministérios  (Iano Andrade/CB/D.A Press)
A Esplanada ao longe Da cozinha, se aprecia o lago, o Congresso e a silhueta dos ministérios



Voando na madeiraO pássaro pendurado na sala parece buscar o céu  (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Voando na madeira O pássaro pendurado na sala parece buscar o céu



Aniversário de casamentoOscar e Doia Kneipp na festa de 35 anos de união (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Aniversário de casamento Oscar e Doia Kneipp na festa de 35 anos de união



Bolas e bolinhasA dona da casa cultiva esculturas arredondadas como as da cesta (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Bolas e bolinhas A dona da casa cultiva esculturas arredondadas como as da cesta



Mesa de centroTexturas e cores diferentes no móvel de madeira (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Mesa de centro Texturas e cores diferentes no móvel de madeira