segunda-feira, 6 de maio de 2013

Pesquisa mostra como poderão ser os prédios em 2050

RIO - Edifícios interligados ao metrô e bondinho para otimizar o trânsito. Robôs voadores que, sozinhos, limpem as janelas. Um andar só para produção de comida urbana. Essas são algumas das propostas para as construções de 2050, segundo o relatório "It's Alive" (ele está vivo) do Foresight, grupo da multinacional de engenharia Arup que estuda o futuro dos empreendimentos urbanos. Até lá, diz a ONU, a população mundial terá passado de sete para nove bilhões de pessoas - e a previsão é de que 75% delas estejam vivendo nas grandes cidades.

Em vez de ampliar as redes de transporte e os padrões de crescimento urbano para dar conta dos dois bilhões a mais de habitantes, o relatório propõe a otimização do espaço dentro das cidades. Neste caso, são as mudanças demográficas e de estilo de vida que irão orientar a evolução urbana. As estruturas serão totalmente integradas ao tecido da cidade, sensíveis às mudanças nos ambientes externo e interno, e projetadas para adaptação contínua.

Em entrevista ao GLOBO, o autor da pesquisa, Josef Hargrave, definiu o estudo como um exercício de imaginação, em que as tecnologias e funcionalidades sugeridas devem ser associadas às edificações de acordo com as demandas econômicas e sociais de cada cidade ou região:

- Não pretendemos dizer como será o ambiente construído daqui a 40 anos, mas, sim, oferecer uma visão, uma inspiração do que pode acontecer até lá. São prédios inteligentes, que devem funcionar como organismos vivos, tomando decisões com base nos ambientes externo e interno, na ecologia e na saúde do homem. Mas isso não quer dizer que o edifício deverá usar todas as tecnologias das quais falamos.

As construções serão autossuficientes

Boa parte das propostas da Foresight/Arup ainda está sendo desenvolvida, localmente ou em laboratório. Os robôs voadores por exemplo, são, hoje, experimentados pela equipe de ciência e tecnologia da universidade ETH Zurique. Autônomas, essas máquinas podem construir uma torre de seis metros, sem qualquer intervenção humana. Já os módulos de produção de comida urbana, atualmente estudados em Cingapura, resultaram em uma grande fazenda vertical de alimentos, como forma de economizar espaço e deslocamento de moradores.

Entre as sugestões com previsão de melhoria do meio ambiente, e com eficiência energética, a mais curiosa é a fachada de algas que produz biocombustível. Uma experiência similar acaba de ser construída em Hamburgo, na Alemanha, pela Arup. O edifício tem fachada composta por grelhas de algas que produzem energia suficiente para o abastecimento dos apartamentos e da área comum. Mas ainda não fabricam biocombustível. Já outro exemplo da pesquisa mostra revestimentos externos de nano-partículas que são capazes de neutralizar poluentes, transformando gás carbônico (CO²) em oxigênio (O²).

Algumas projeções da pesquisa, no entanto, já podem ser encontradas no Brasil, ainda que de forma tímida, como espaço de co-working e compartilhamento de carros. Os futuros edifícios inteligentes, portanto, vão além do controle automático de energia, passando a gerir e a interagir com a rotina do morador, com os recursos ambientais e tecnológicos. Mas a estrutura, ao incluir espaço para trabalho, consumo de alimento e lazer, também pode remeter ao enclausuramento já encontrado em grandes condomínios horizontais, observa o arquiteto Fábio Queiroz, pesquisador do Núcleo de Pesquisa Sobre Habitação e Modos de Vida (Nomads/USP).

- Quanto ao comportamento no espaço doméstico, podemos ter um aprofundamento da tendência de interiorização psíquica dos indivíduos, com cada um vivendo e fazendo tudo em sua célula - destaca Queiroz, para quem, em quatro décadas, os prédios poderão oferecer alta qualidade de serviço individual, em resposta a um público cada vez mais exigente, só que, ao mesmo tempo, mantendo um diálogo permanente com a cidade.

O estudo da Arup também provoca questionamentos. Para o arquiteto Pedro Rivera, sócio fundador do RUA Arquitetos, e diretor do Studio-X Rio, vale pensar em como criar relações entre cidade e edifícios de "maneira, entre aspas, ecológica":

- A pesquisa fala de interfaces entre os edifícios e a cidade e aponta vias de acesso entre os empreendimentos. Mas como isso estará integrado ao tecido urbano? É preciso preservar elementos do passado. Devemos estabelecer relação entre o que já está construído e o centro urbano.